segunda-feira, 30 de junho de 2014

O entregador de leite

Virei o trinco e empreguei um pouco a mais de força. Pronto, o sol já alcançava a sala que a muito vivia em breu.

O cheiro insuportável do cigarro, que não gosto mas que se tornou minha única companhia nos últimos dois anos, começou a se dissipar.

Sinto falta do sertão. Tenho chovido muito nos últimos anos. Alaguei-me na verdade. Tenho saudades da sede, da grande amargura, da eterna necessidade.

Em algumas horas ele chega. Não sei como é o seu rosto. Lembro-me vagamente de sua voz. Era um pouco rouca, mas com um fundo rosado, não sei como descrever, mas lembro-me bem.

Ele traz o leite todas as manhãs. Hoje, bem, não sei por qual motivo, hoje resolvi ser sociável. Vesti minha roupa menos amarrotada, não posso dizer que estava limpa, mas a vesti.

Ele disse que chegaria às 10h em ponto, mas já são 10h07. Na verdade ele não disse isso. Eu apenas supus, pois esse é o horário que ele chega todas as manhãs.

10h08.

10h09.

Desisto. Ele não vem. Tiro a roupa, jogo-a sem esperanças sobre um dos montes de coisas para lavar. Tomo um gole de café velho e abro uma cerveja.

11h00. Lembro-me que nunca comprei leite.

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