Gostaria de arrancar essa saudade com as mãos.
Trataria do buraco sangrento em meu peito com sal.
Sangue e sal cicatrizariam esse buraco que me engole.
Se meu coração é só saudade, de que me vale?
Saudade se sente por algo que não se tem, se meu coração é saudade,
O que tenho além de dor?
Venho tentando esquecer. Às vezes penso que consegui
Mas então, a outra boca tem o gosto da sua,
O sal dos corpos me lembram o seu.
Percebo no fim, que o sal não cicatriza a ferida
Já tentei com lágrimas e suor
Mas o buraco por onde saiu meu coração, continua
A saudade que deveria ter saído com ele, continua
A lembrança exagerada continua
Tudo continua, menos a gente
Essa é a verdade, nua, dolorosa
Um dia se descobre que és uma mentira. Descrições sobre ausências, vazios, surtos e (des)certezas.
domingo, 20 de julho de 2014
quinta-feira, 10 de julho de 2014
Conversas com um amigo - 10/07
- Você sabe algum vemédio para saudade?
Digo vemédio, pois fico em dúvida se para saudade devemos aplicar veneno ou remédio...
Você sabe algum? Conhece? Me diz por favor, pois viver disso é morrer.
Você sabe algum? Conhece? Me diz por favor, pois viver disso é morrer.
- Vemédio, eu não sei...
Remédio só presença;
Veneno só esquecimento.
Remédio só presença;
Veneno só esquecimento.
- E quando se equilibra no muro existente entre os dois, mas não se pode cair na presença e nem pular no esquecimento?!
O que você faz?!
O que você faz?!
- A gente persiste no muro por um tempo.
Chega uma hora que tem que escolher um lado.
É inevitável!
Chega uma hora que tem que escolher um lado.
É inevitável!
- Vou continuar evitando...
Se eu precisar chorar me acompanha em um vinho?!
Se eu precisar chorar me acompanha em um vinho?!
- Claro!
Alguns amigos deveriam se chamar anjos ou irmãos. Como não se chamam, chamamos-lhes de sorrisos...
Resumo do ciclo terminal
O tempo, o silêncio, a não presença tornam-se névoa e atrás dessa jaz turva a sua imagem.
A saudade se torna vapor, vai-se voando tranquila, não se deixa agarrar.
O corpo, ainda encharcado, tenta de algum modo recuperar-se dos dilúvios sofridos, para enfim, novamente germinar amor.
A saudade se torna vapor, vai-se voando tranquila, não se deixa agarrar.
O corpo, ainda encharcado, tenta de algum modo recuperar-se dos dilúvios sofridos, para enfim, novamente germinar amor.
segunda-feira, 7 de julho de 2014
Novena de morte ou A mulher que colecionava calendários
E ela contava os dias como quem manuseia as contas de um rosário.
Um a um, balbuciando sempre palavras inaudíveis, ensaiando alguns sorrisos e lágrimas, ela os contava.
Guardava-os em caixas empoeiradas espalhadas pela casa.
Os dias mais amorosos e quentes, ela guardava com carinho. Enchia-os de anotações feitas com canetas coloridas e normalmente iniciava seus escritos assim: Querido diário...
As caixas de amores, organizadas por semestres (ela não conseguiu permanecer em terra por muito tempo, pois era como se perdesse o tempo... Tola criança...) eram peculiares. As primeiras, volumosas, abarrotadas de papéis, agendas, diários, guardanapos, a última jazia vazia, fechada e em sua tampa, a palavra esperança quase apagada, na verdade, apenas um borrão.
Houve também dias sombrios, muitos aliás. Não se pode esperar outra coisa de alguém que viveu só. Esses dias, foram depositados com um carinho imenso debaixo do seu chuveiro, na esperança de que a chuva lavasse as trevas que existiam ali. Que a água, preenchesse o vazio cinzento daquelas das manhãs em que não levantava para sorrir.
Havia calendários por todas as paredes, menos na cozinha. Ela considerava a cozinha um espaço fora do real, onde não havia tempo. E ali, a beira do fogão ela passou a maior parte dos dias, escondendo-se do tempo, ou descansando do mesmo, mas ainda assim carregava o rosário em seu bolso. Ela entendia-se antagônica.
Uma caixa ou rascunho para cada dia... Ela controlou assim sua vida. Havia decorado todos os seus dias, seu pormenores, se conhecia como ninguém, se conhecia tanto, que entendeu quando chegou em sua última conta. Houve tempo apenas de dizer: agora e na hora de nossa morte...
Ela colecionou, contou todos os dias, na ansiedade de que chegasse o momento de dizer: E para todo o sempre, e por todos séculos e séculos, amém!
Um a um, balbuciando sempre palavras inaudíveis, ensaiando alguns sorrisos e lágrimas, ela os contava.
Guardava-os em caixas empoeiradas espalhadas pela casa.
Os dias mais amorosos e quentes, ela guardava com carinho. Enchia-os de anotações feitas com canetas coloridas e normalmente iniciava seus escritos assim: Querido diário...
As caixas de amores, organizadas por semestres (ela não conseguiu permanecer em terra por muito tempo, pois era como se perdesse o tempo... Tola criança...) eram peculiares. As primeiras, volumosas, abarrotadas de papéis, agendas, diários, guardanapos, a última jazia vazia, fechada e em sua tampa, a palavra esperança quase apagada, na verdade, apenas um borrão.
Houve também dias sombrios, muitos aliás. Não se pode esperar outra coisa de alguém que viveu só. Esses dias, foram depositados com um carinho imenso debaixo do seu chuveiro, na esperança de que a chuva lavasse as trevas que existiam ali. Que a água, preenchesse o vazio cinzento daquelas das manhãs em que não levantava para sorrir.
Havia calendários por todas as paredes, menos na cozinha. Ela considerava a cozinha um espaço fora do real, onde não havia tempo. E ali, a beira do fogão ela passou a maior parte dos dias, escondendo-se do tempo, ou descansando do mesmo, mas ainda assim carregava o rosário em seu bolso. Ela entendia-se antagônica.
Uma caixa ou rascunho para cada dia... Ela controlou assim sua vida. Havia decorado todos os seus dias, seu pormenores, se conhecia como ninguém, se conhecia tanto, que entendeu quando chegou em sua última conta. Houve tempo apenas de dizer: agora e na hora de nossa morte...
Ela colecionou, contou todos os dias, na ansiedade de que chegasse o momento de dizer: E para todo o sempre, e por todos séculos e séculos, amém!
domingo, 6 de julho de 2014
Se até no título há saudade, se até no título há você, o que mais posso dizer?
Por que existe a saudade?
Você me disse, quando nos conhecemos, algo sobre instinto.
Algo sobre sermos instinto.
Mas a saudade se encaixa nisso como?
Eu lhe disse, quando nos conhecemos, algo sobre vazios.
Você seria apenas o preenchimento desse meu vazio.
Ao sair, deveria voltar tudo a ser como antes.
Mas esse abismo, vem de onde?
A saudade deve ser do tamanho da desimportância que represento para ti.
Saudade é beijo não mais trocado, sorriso que agora precisa de motivo.
Saudade é texto ruim.
Esse texto é pura saudade.
Saudade é querer escrever sobre o mundo e em cada palavra do universo estar grafado seu nome, mesmo que não se veja isso no verso (só eu sei).
Você me disse, quando nos conhecemos, algo sobre instinto.
Algo sobre sermos instinto.
Mas a saudade se encaixa nisso como?
Eu lhe disse, quando nos conhecemos, algo sobre vazios.
Você seria apenas o preenchimento desse meu vazio.
Ao sair, deveria voltar tudo a ser como antes.
Mas esse abismo, vem de onde?
A saudade deve ser do tamanho da desimportância que represento para ti.
Saudade é beijo não mais trocado, sorriso que agora precisa de motivo.
Saudade é texto ruim.
Esse texto é pura saudade.
Saudade é querer escrever sobre o mundo e em cada palavra do universo estar grafado seu nome, mesmo que não se veja isso no verso (só eu sei).
quarta-feira, 2 de julho de 2014
Trecho de um conto inexistente: cozinha, café, amor e sorrisos
Tanto sofreu por uma memória que não mais sabia estar.
O presente se tornou confuso, era como se ele acontecesse ao mesmo tempo que o passado e os sonhos.
Tanto sofreu por uma memória, que se perdeu. Perdeu o sorriso em algum quarto dos fundos, talvez ao lado da cozinha, onde deixou seus pés.
A cozinha era, talvez (sempre talvez, a confusão estava tão estabelecida que era impossível ter certezas), o lugar mais difícil para ele. Ela possuía um cheiro agradável de café recém passado e incenso de alecrim, que eles acendiam enquanto preparavam o desanuyo.
Os seus pés, ficaram ali plantados, em contato com o chão de suas lembranças. Cozinha, amor, café e sorrisos. Me expliquem, aqueles que criticam os que vivem em passados, o que pode existir de mais acolhedor que esse conjunto de amores: cozinha, café e sorrisos (mesmo que forçados)?
O resto do corpo foi se perdendo pelos cantos. A mão ficou na janela, onde por tantas noites apontou a lua. Gostaria que um dia apontassem a lua para mim. Apontaram as estrelas, mas nunca a lua. Será que hoje elá está bonita?
Uma mão que aponta a lua nos dá pistas de como anda o coração. No caso dele, já não anda, andou tudo o que pode, rasgou-se quando não mais o deixaram caminhar. No rasgo cresceu uma planta escura, que lembra uma trepadeira e foi prendendo-o, amarrando-o ao tórax, que apodrecia na cama, junto à cabeça que ficou ali, colada no travesseiro, apenas sentido o cheiro que há muito havia passado.
O coração apertado fazia com que ele sentisse espasmos espaçados e lágrimas sem gosto (todo o sal do rosto já havia sido limpo pelas precedentes). Mas não havia muita saída, os seus pés estavam longe, em terra, as suas mãos estavam distantes, apontando o céu e nem mais o sorriso ele possuía para oferecer à alguém como pagamento por uma ajuda.
Tanto sofreu por uma memória, que aprendeu a estar em desvida e não se tornou memória de ninguém, apenas de si mesmo.
O presente se tornou confuso, era como se ele acontecesse ao mesmo tempo que o passado e os sonhos.
Tanto sofreu por uma memória, que se perdeu. Perdeu o sorriso em algum quarto dos fundos, talvez ao lado da cozinha, onde deixou seus pés.
A cozinha era, talvez (sempre talvez, a confusão estava tão estabelecida que era impossível ter certezas), o lugar mais difícil para ele. Ela possuía um cheiro agradável de café recém passado e incenso de alecrim, que eles acendiam enquanto preparavam o desanuyo.
Os seus pés, ficaram ali plantados, em contato com o chão de suas lembranças. Cozinha, amor, café e sorrisos. Me expliquem, aqueles que criticam os que vivem em passados, o que pode existir de mais acolhedor que esse conjunto de amores: cozinha, café e sorrisos (mesmo que forçados)?
O resto do corpo foi se perdendo pelos cantos. A mão ficou na janela, onde por tantas noites apontou a lua. Gostaria que um dia apontassem a lua para mim. Apontaram as estrelas, mas nunca a lua. Será que hoje elá está bonita?
Uma mão que aponta a lua nos dá pistas de como anda o coração. No caso dele, já não anda, andou tudo o que pode, rasgou-se quando não mais o deixaram caminhar. No rasgo cresceu uma planta escura, que lembra uma trepadeira e foi prendendo-o, amarrando-o ao tórax, que apodrecia na cama, junto à cabeça que ficou ali, colada no travesseiro, apenas sentido o cheiro que há muito havia passado.
O coração apertado fazia com que ele sentisse espasmos espaçados e lágrimas sem gosto (todo o sal do rosto já havia sido limpo pelas precedentes). Mas não havia muita saída, os seus pés estavam longe, em terra, as suas mãos estavam distantes, apontando o céu e nem mais o sorriso ele possuía para oferecer à alguém como pagamento por uma ajuda.
Tanto sofreu por uma memória, que aprendeu a estar em desvida e não se tornou memória de ninguém, apenas de si mesmo.
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