O presente se tornou confuso, era como se ele acontecesse ao mesmo tempo que o passado e os sonhos.
Tanto sofreu por uma memória, que se perdeu. Perdeu o sorriso em algum quarto dos fundos, talvez ao lado da cozinha, onde deixou seus pés.
A cozinha era, talvez (sempre talvez, a confusão estava tão estabelecida que era impossível ter certezas), o lugar mais difícil para ele. Ela possuía um cheiro agradável de café recém passado e incenso de alecrim, que eles acendiam enquanto preparavam o desanuyo.
Os seus pés, ficaram ali plantados, em contato com o chão de suas lembranças. Cozinha, amor, café e sorrisos. Me expliquem, aqueles que criticam os que vivem em passados, o que pode existir de mais acolhedor que esse conjunto de amores: cozinha, café e sorrisos (mesmo que forçados)?
O resto do corpo foi se perdendo pelos cantos. A mão ficou na janela, onde por tantas noites apontou a lua. Gostaria que um dia apontassem a lua para mim. Apontaram as estrelas, mas nunca a lua. Será que hoje elá está bonita?
Uma mão que aponta a lua nos dá pistas de como anda o coração. No caso dele, já não anda, andou tudo o que pode, rasgou-se quando não mais o deixaram caminhar. No rasgo cresceu uma planta escura, que lembra uma trepadeira e foi prendendo-o, amarrando-o ao tórax, que apodrecia na cama, junto à cabeça que ficou ali, colada no travesseiro, apenas sentido o cheiro que há muito havia passado.
O coração apertado fazia com que ele sentisse espasmos espaçados e lágrimas sem gosto (todo o sal do rosto já havia sido limpo pelas precedentes). Mas não havia muita saída, os seus pés estavam longe, em terra, as suas mãos estavam distantes, apontando o céu e nem mais o sorriso ele possuía para oferecer à alguém como pagamento por uma ajuda.
Tanto sofreu por uma memória, que aprendeu a estar em desvida e não se tornou memória de ninguém, apenas de si mesmo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário