E ela contava os dias como quem manuseia as contas de um rosário.
Um a um, balbuciando sempre palavras inaudíveis, ensaiando alguns sorrisos e lágrimas, ela os contava.
Guardava-os em caixas empoeiradas espalhadas pela casa.
Os dias mais amorosos e quentes, ela guardava com carinho. Enchia-os de anotações feitas com canetas coloridas e normalmente iniciava seus escritos assim: Querido diário...
As caixas de amores, organizadas por semestres (ela não conseguiu permanecer em terra por muito tempo, pois era como se perdesse o tempo... Tola criança...) eram peculiares. As primeiras, volumosas, abarrotadas de papéis, agendas, diários, guardanapos, a última jazia vazia, fechada e em sua tampa, a palavra esperança quase apagada, na verdade, apenas um borrão.
Houve também dias sombrios, muitos aliás. Não se pode esperar outra coisa de alguém que viveu só. Esses dias, foram depositados com um carinho imenso debaixo do seu chuveiro, na esperança de que a chuva lavasse as trevas que existiam ali. Que a água, preenchesse o vazio cinzento daquelas das manhãs em que não levantava para sorrir.
Havia calendários por todas as paredes, menos na cozinha. Ela considerava a cozinha um espaço fora do real, onde não havia tempo. E ali, a beira do fogão ela passou a maior parte dos dias, escondendo-se do tempo, ou descansando do mesmo, mas ainda assim carregava o rosário em seu bolso. Ela entendia-se antagônica.
Uma caixa ou rascunho para cada dia... Ela controlou assim sua vida. Havia decorado todos os seus dias, seu pormenores, se conhecia como ninguém, se conhecia tanto, que entendeu quando chegou em sua última conta. Houve tempo apenas de dizer: agora e na hora de nossa morte...
Ela colecionou, contou todos os dias, na ansiedade de que chegasse o momento de dizer: E para todo o sempre, e por todos séculos e séculos, amém!
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